domingo, 23 de janeiro de 2011

Ao final, o fim

Esta é a última postagem deste blogue, que não será apagado, pois é o testemunho de uma insatisfação que não foi vencida. Não digo que eu não goste dele, pois me diverti bastante ao construí-lo. Também não posso dizer que não aprenda nada com este ofício, cujo exercício é uma escola em si mesma. Muito menos poderia dizer que me faltem assuntos. Exemplos de temas que eu gostaria de abordar seriam as merecidas aposentadorias dos ex-governadores, o caso Cesare Battisti e as declarações do ministro Aloízio Mercadante sobre as enchentes. Ou seja, eu poderia seguir com esta crônica política, mas o fato é que me cansei de apenas escrever sobre gente medíocre. Sinto a necessidade de enveredar por algo mais estrutural, irreversível, profundo. É mais fácil agredir espantalhos do que monstros reais, mas os espantalhos servem como preparação. Talvez este blog tenha sido algo como um sonho de uma letargia. A gordura gasta nesta hibernação é agora musculatura para uma viagem que só se faz uma vez. Agradeço aos que me leram, e aos que se manifestaram. Lamento apenas não ter recebido críticas mais duras, pois são o tipo de manifestação que acreditava seriam ensejadas. Que esta despedida seja um até breve, e que nos encontremos novamente noutras linhas.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

a volta da boneca pródiga

O ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, o Baby-Doc, retorna ao seu país. Ele diz que veio "para ajudar". O sr. Duvalier fugiu do Haiti após uma revolta popular contra os seus quinze anos de desgoverno. Asilou-se na França e agora resolve voltar. Por qual motivo, eu não sei, mas vou propor uma hipótese, que pode evidentemente estar errada.

Dizem que Baby-Doc desviou US$ 100 milhões. Quanto será que ele ainda tem? Ladrões não costumam economizar. Vivendo como um príncipe na costa mediterrânea nos últimos 25 anos, não acredito que tenha sobrado muita coisa na conta do sr. Duvalier. Se isto é verdade, a sua única chance de sobreviver é voltar ao único ofício que aprendeu na vida: o roubo. Daí a o retorno ao Haiti do seu filho mais ilustre. Esta é uma prova que vodu não passa de uma invenção de algum fabricante de bonecas, nem eliminar esta peste ele conseguiu.

A Tunísia não é logo ali

Há cerca de um mês, um verdureiro tunisiano ateou fogo ao corpo após ter seus produtos confiscados. Um gesto desesperado ante o enorme desemprego que assola a Tunísia. Este ato foi precursor de uma onda de protestos que culminou com a renúncia do ditador do país, Ben Ali. Para o blogueiro Gustavo Chakra, o governo teria sobrevivido se tivesse um inimigo externo para culpar. Ou seja, segundo a hipótese do sr. Chakra, se tivesse um inimigo externo, o governo tunisiano poderia dizer que o causador do desemprego, e também do suicídio do verdureiro, é o imperialismo americano, ou talvez o neoliberalismo, ou a globalização, ou algo parecido. Depois desta explicação bastante plausível, os cidadãos pacificamente retornariam às suas casas. A este texto, eu escrevi o seguinte comentário:

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14/01/2011 - 17:05
Enviado por: Sergio Giardino

Esta hipótese de que o governo caiu pois o ditador não tinha nenhum governo externo para culpar pelos problemas internos é no mínimo, leviana. Ridículo acreditar que pessoas insatisfeitas por estarem desempregadas voltariam a suas casas pacificamente com uma desculpa destas. Melhor se informar direito antes de fazer especulações infundadas.

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A ele, Chakra respondeu:



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14/01/2011 - 17:08
Enviado por: Gustavo Chacra

Sergio, este foi o argumento usado no Irã para realizar contra-manifestações em 2009. E funcionaram bem. Atos gigantes a favor do governo foram convocados. O Ben Ali não poderia agir da mesma forma. E tudo bem você discordar (isso é blog, não tese de PhD), mas seja um pouco mais educado

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Ou seja, escrever num blogue nos dá o direito de propagar idéias equivocadas, afinal, blogue não é tese de doutorado. Além disso, quando o blogueiro escreve algo errado, nós podemos "discordar", mas nunca dizer: "está errado", pois isto constitui uma violação das regras do convívio social.




notícias

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Chove na horta em janeiro

O apocalipse chegou mais cedo para centenas de pessoas atingidas pelas chuvas. Tragédia para uns, oportunidade para outros. Aos políticos estes acontecimentos são uma verdadeira benção. Como diria Maquiavel, o bem se faz aos poucos, e mal de uma única vez. A destruição de uma semana vai movimentar bastante a economia dos durante todo o ano. Ouvi dizer R$600 milhões, uma importância considerável e que enseja boas oportunidades de ganho aos corruptos. Sem contar que a cifra tende a aumentar. A indústria de automóveis também já esfega as mãos para repor os carros e ônibus destruídos, sem falar nas auto-peças. A construção civil, então, nem se fala: construir num ano para destruir no próximo. Este é o verdadeiro crescimento sustentado da economia, pois o desperdício indispensável ao capitalismo está garantido.

Muitos empregos serão gerados, e os cidadãos ficarão bastante satisfeitos. Algumas pessoas morreram, mas a gratidão dos sobreviventes com os seus salvadores será mais do que suficiente para garantir a próxima eleição. A comoção gerada por uma criança morta ou um idoso desenterrado vivo são ótimos para fomentar o patriotismo, e as religiões também ganham mais alguns prosélitos, seja pelos atingidos direta ou indiretamente, seja pelos tele-compassivos. Ou seja, só mesmo alguém muito fora da realidade para imaginar que existe interesse extra-retórico de quem quer que seja em acabar com as enchentes de janeiro. Até as próximas, se deus quiser.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Alckmin: o bom samaritano

O discurso de posse de Geraldo Alckmin ao governo paulista é expressão de algo que somente a mistura de política e cristianismo pode gerar. Primeiro veio uma invocação ao sacrifício de governar digna de um Cristo. A modéstia e austeridade que ele julga necessárias ao cargo são dificilmente encontradas no vulgo, mas abundam nele próprio, é claro. Como bom cristão, servidor e temente ao altíssimo, Alckmim é devoto de alguns santos, e em seu altar figuram Covas, FHC e Serra. Alckmim sabe que os caminhos do senhor são tortuosos, mas mesmo assim não deve nunca se afastar dele, e isso significa que nada muda em São Paulo nos próximos quatro anos. Incrível que alguém se eleja para qualquer coisa com a proposta de nada fazer além do óbvio, sem ter uma única idéia. Não que mudanças bruscas seriam necessárias, mas ele não tem qualquer intenção fora deixar tudo como está, pois graças aos seu santos-padrinhos que o inventaram e também castigaram, o estado vai a mil maravilhas. Sobre Dilma, usou a expressãozinha da moda anti-criatividade que domina tanto o Planalto como o Bandeirantes: ele terá uma "relação republicana" com o governo federal. O que quer dizer? Nada, pois é apenas uma oração a mais no terço político rezado mecanicamente por Alckmin.

Bye Bye, Cartum


Neste domingo ocorre um plebiscito sobre a secessão da região sul do Sudão. Esta região de religiões cristã e animista pretende separar-se do norte predominantemente muçulmano. A foto mostra um dos símbolos da campanha pela separação, uma mão acenando um adeus a Cartum, a capital.

Este tipo de evento sempre suscita uma discussão sobre liberdade, pois o sul sudanês diz-se explorado pelo norte. Países grandes como o Sudão, cujo território é cerca de 30% do brasileiro, são melhor descritos como um império que como uma república: um determinado grupo controla o estado, cujo interesse não é o bem-estar da população, mas sim o enriquecimento deste e dos seus controladores. Esta situação é mais difícil de ser mantida em estados pequenos, onde a população está mais próxima dos governantes.

O Brasil possui uma analogia com a situação sudanesa. Como tal, é um país imenso, com muitas realidades diferentes e um povo cuja única identidade é a língua. As dimensões do país desfavorecem o contado da população com os seus representantes, que consideram-se uma espécie de nobreza. Nesse sistema político, as populações nunca estão satisfeitas. Os estados mais ricos dizem sustentar os mais pobres e estes se dizem explorados pelos mais ricos, um paradoxo onde todos se dizem explorados, mas na realidade todos são vítimas de um único explorador: os políticos. Quem sabe um dia as populações dos estados brasileiros poderão tomar consciência da sua condição de explorados e dar um adeus semelhante à Brasília.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Dilma, a presidenta muita competenta

Começa sob maus auspícios o reinado da sra. Dilma Roussef, pelo menos é o que se depreende dos seus dois discursos na cerimônia de posse. O primeiro deles foi bastante bem criticado por Demétrio Magnoli numa entrevista que pode ser vista na TV Estadão e cujos argumentos não repetirei. A minha primeira impressão destes pronunciamentos é que eles mostram a completa falta de criatividade da sua autora. A primeira evidência deste fato é a maneira como ela dirige-se aos seus governados: "queridos brasileiros e queridas brasileiras". Qualquer semelhança com os discursos de José Sarney não é coincidência. Além disso, utilizar-se de um bordão criado por um dos piores presidentes da história brasileira indica que ela não vê como grave o desastroso governo de Sarney. Talvez seja um afago a um de seus maiores aliados, como pode ser visto na influência deste último no ministério de Dilma, ou talvez exista uma admiração intelectual por Sarney, além da acomodação de forças políticas. Qualquer uma das hipóteses me parece péssima.

No conteúdo dos discursos a sua forma a falta de inventividade fica patente. No primeiro deles, no plenário da câmara dos deputados, Dilma repetiu promessas eleitorais. Não foi capaz de traduzir as metas de crescimento econômico e reformas legais em valores. É de esperar-se que os valores, que são os fins, precedam as ações, que são os meios. Dilma não sabe disso, ou não é capaz de relacionar as duas coisas. Ao ar livre, no parlatório e dirigindo-se diretamente à população ali presente, repetiu trechos inteiros do discurso anterior. Ou seja, no primeiro discurso não conseguiu dizer nada do que já não tenha dito e no segundo não conseguiu sequer dizer as mesmas coisas de outra forma. Além da má qualidade dos textos, é oradora inconstante, interrompe o discurso para pensar e transmite uma sensação de insegurança. Decididamente esta senhora não tem o dom da palavra.

Outra evidência da falta de imaginação de Dilma está num pequeno detalhe, ela chama-se de presidenta e não presidente. Mais uma vez, uma cópia. A polêmica do uso do termo já existe com a presidente Cristina Kirchner da Argentina, que também quer ser chamada de presidenta. Meu léxico on-line me informa que o vocábulo existe, mas tenho uma certa má-vontade com ele. Me explico: presidente vem do verbo presidir, e é aquela pessoa que preside, assim como amante é quem ama, estudante quem estuda, assistente quem assiste, etc etc. Por esta razão não dizemos amanta, estudanta ou assistenta. Esta forma tem origem no antigo particípio presente do latim, que é algo assemelhado ao gerúndio, uma forma que transmite a idéia do tempo presente. Esta sensação também pode ser obtida de adjetivos com terminação semelhante à dos substantivos supracitados, como constante, incessante, atuante, retumbante, etc. Podem dizer que este é um fato irrelevante, mas em certos detalhes é possível observar algo que se queria ocultar. A primeira coisa é o boato de que Dilma seria uma pessoa de grande cultura. Duvido muito, pessoas cultas normalmente conhecem sua língua com alguma profundidade, o que parece não ser o caso. Isto também pode ajudar a entender a preferência de Lula por Dilma. Ignorantes como Lula não têm muita afinidade pelos cultos e se ele escolheu Dilma para ser sua sucessora, talvez eles tenham mais em comum do que pareceria numa primeira observação. Um segundo problema é a superstição que está embutida no uso da linguagem. Supersticiosos acreditam no poder sobrenatural das palavras, mesmo das que vêm desacompanhadas de ações. Talvez algumas feministas acreditem que o uso da palavra presidenta tenha a capacidade de inculcar na cabeça de quem a ouve a idéia de igualdade gêneros, algo característico da palavras-mágicas de contos de fadas. Finalmente, a insistência de Dilma em chamar-se de presidenta demonstra seu lado autoritário, pois indica que Dilma acredita que o cargo que provisoriamente ocupa lhe faculta o direito de outorgar leis gramaticais como quem cria impostos. Talvez em breve ela queira mudar também a concordância de outras palavras que atualmente não sofrem flexão de gênero, e então o título desta postagem segue como sugestão para a língua futura.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz 2003, sra. Dilma Roussef

Amanhã, primeiro de janeiro, a sra. Dilma Roussef receberá do sr. Lula a faixa presidencial. As coincidências com a mesma data de oito anos atrás são grandes. Antônio Palocci como ministro e José Dirceu como eminência parda serão protagonistas e militantes do PT paulista são a maioria do novo ministério, tal como foram no criticado 'paulistério' de antanho. Dirceu chegou inclusive a anunciar que este seria o primeiro governo realmente petista. A figura de Lula, com a sua exuberante xucrice que ofuscou mentes supostamente mais preparadas deverá a ser afastada da realidade, colocada no altar do patriotismo e invocada somente em rituais de exorcismo. A alegria de ser ignorante de Lula dá lugar à sobriedade da instruída Dilma, que dizem ser inclusive uma mulher de cultura literária.

Em relação ao primeiro governo Lula, as expectativas são pequenas, algo desejável para a nova ocupante da cadeira presidencial. Acredita-se no continuísmo, mas eu não apostaria todas as fichas neste cavalo. Mais experientes, os petistas já sabem que é melhor cobrar impostos de empresas privadas do controlar empresas estatais, que é melhor moeda forte que inflação, já cometeram erros que seus adversários não souberam aproveitar para derrotá-los, e não devem cometê-los novamente. A condição oposicionista é difícil, são poucos e medíocres, sendo Aécio Neves a única figura de destaque.

Porém, uma incerteza paira no ar: os ideais da esquerda nacionalista que nortearam a criação do PT e a sua chegada ao poder provavelmente não foram totalmente trocados pelo pragmatismo, e a sua implementação ganha nova chance. Sem o viço da juventude da posse de Lula, os petistas têm, aos 30 anos, a mesma oportunidade que tiveram aos 22. Mais um milagre de Lula, que consolidou o poder petista e praticamente girou o relógio político no sentido anti-horário. Não poderíamos finalizar sem desejar um feliz no velho à sra. Dilma Roussef.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Campo da Ostra

Começou a temporada de invenção histórica. A saída de Lula do Planalto será acompanhada por uma campanha pela sua entrada no imaginário brasileiro. Primeiro é a mudança do nome do campo de Tupi do pré-sal para campo de Lula. Moluscos e outros monstros marinhos devem nomear tais campos, ouvi dizer. Em todo caso, é ridículo acreditar que foi uma escolha justa para com os outros seres das profundezas. Logo aparecerão avenidas e praças com o seu nome. Também já deram-lhe o título mundial de popularidade: 87% contra 84% de Michele Bachelet e 82% de Nelson Mandela ao final dos respectivos governos. Relevância destas pesquisas a parte, será razoável comparar tais resultados independentemente da sua confiabilidade e dos seus métodos? Irrelevante, é claro, sobretudo para os marqueteiros de plantão e para a arraia miúda.

Por outro lado, fora do Brasil Lula parece que já meteu os pés pelas mãos, o que o tornará figura impopular. Apoia os polêmicos regimes de Cuba, Irã, Bolívia, Equador e Venezuela, asilará Cesare Battisti, se regozijou publicamente da crise européia e americana, apoiou Manuel Zelaya em Honduras, promove um rearmamento brasileiro que pode desencadear uma corrida armamentista na América do Sul; resumidamente, um desastre. Suas pretensões internacionais estão restritas à África e à América Latina, não sem ressalvas. Ou seja, paira sobre Lula uma ameaça de ostracismo, pois ninguém está imune às intempéries que afligem a existência humana, cuja felicidade, jamais é estável.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Wikileaks Brazil

Depois da tormenta da divulgação da correspondência diplomática pelo Wikileaks, o caso começa a se tornar menos interessante para a imprensa, e a menos que algo novo surja, o episódio não terá maiores repercussões. Ninguém falou exatamente quais são os segredos estratégicos divulgados e que colocariam a segurança nacional americana e de outros estados em risco. Mais do que qualquer informação relevante, o que os altos funcionários não gostaram foi de ter a sua mediocridade revelada. No que se refere ao Brasil, um fato me chamou a atenção: a política militar. Os americanos ficaram perplexos com o interesse brasileiro em investir em aviões e submarinos sem ter qualquer inimigo visível no horizonte. À medida que o Brasil quiser aparecer pela ostentação de um poderio militar, é possível que este inimigo apareça. Pode ser a Colômbia, a Argentina, a Venezuela ou mesmo os EUA. É infantil procurar um inimigo para tentar se auto-afirmar, mas é o que o governo brasileiro quer, e não deverá mudar no governo que se inicia em janeiro próximo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Quércia: pena que não existe inferno

Orestes Quércia, ex-governador de São Paulo, está morto. Seu governo e o de seu continuador, Luiz Antonio Fleury Filho, foram bastante ruins. A indústria automobilística, como sempre, se deu bem: foram muitas estradas para os felizes proprietários de automóveis. O transporte ferroviário continuou seu processo de sucateamento com a deterioração da Fepasa. Por outro lado em seu governo foi construída a hidrovia Tietê-Paraná. Um ponto positivo em contradição com o suposto favorecimento às rodovias, alguém pode argumentar. Entretanto, a tal via fluvial é de pequena utilidade se não estiver acoplada a outros transportes, sobretudo o ferroviário. Ou seja, foi uma obra isolada, de custo elevado, que foi útil na eleição de Fleury mas teve um impacto mínimo na matriz logística do estado. Também não se pode esquecer o caos financeiro que seguiu-se à megalomania destes senhores, com a capacidade de investimento do estado estrangulada durante alguns anos. A venda do Banespa foi necessária para cobrir o rombo gerado pelas obras tocadas sem a devida engenharia financeira. Não que depois da cobertura do rombo algo tenha mudado na política de investimentos do estado, mas o fato é que Quércia foi mais um desta linhagem. Todos costumam ser considerados bonzinhos após a morte; esta é a tradição brasileira, da qual comungo. A morte de Quércia é uma boa notícia e só não é melhor pois não ocorreu há 25 anos, antes da sua eleição para o Palácio dos Bandeirantes.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sistema internacional lulista de medidas

Lula diz que a solução dos conflitos no oriente médio passa por um aumento do número de mediadores para as negociações. Digamos que é uma afirmação, no mínimo, temerária. Qual o papel do mediador numa negociação? Aparentemente Lula acha que é pressionar uma das partes a aceitar a proposta do oponente. Ou seja, ao invés de mediar, o árbitro se coloca ao lado de uma das partes envolvidas. Talvez Lula e seus assessores de relações exteriores achem que os EUA tomam o lado israelense e então outros participantes entrariam para auxiliar os palestinos. Algo que pode não estar totalmente errado, mas a solução proposta pela entrada de mais mediadores certamente não mudará o quadro.

Idéias como esta são comuns na visão que o PT e outros esquerdistas têm das relações internacionais. Se tal fato se materializasse, seria uma reedição da guerra fria, onde americanos e soviéticos disputavam a influência sobre países politicamente instáveis. Este tipo de política internacional interessa apenas aos governantes brasileiros ávidos de poder fora das fronteiras do seu estado e aos EUA, naturalmente. Afinal, os americanos não têm adversário militar e nunca vão ceder à pressão de quem quer que seja. Os povos dos estados envolvidos em tal negociação são os menos interessados. Primeiro pois normalmente tais populações são mantidas em estado de guerra ou de autoritarismo pelos seus próprios compatriotas, segundo pois os seus defensores externos os utilizarão como objeto de disputas comerciais e e políticas entre os mediadores que nada têm a ver com o conflito particular. Ou seja, tal mediação não leva à solução de nenhuma disputa entre partes, pois a solução é totalmente desinteressante aos mediadores, que perderiam uma arena de atuação internacional. Mais uma vez, Lula perde a chance de ficar calado.

sábado, 18 de dezembro de 2010

O comunismo tupiniquim

O aumento dos salários congressistas em mais de 60%, o triplo da inflação acumulada no período sem aumentos, é totalmente absurdo e injustificado. Em todo caso, episódios como esse servem para entender como funciona a engrenagem política brasileira. Existe uma política eleitoral feita de palavras e uma política de ações que nada tem a ver com aquele discurso.

Em momentos como esta votação, como em quase todos fora da disputa eleitoral, as divergências ideológicas desaparecem completamente. Vamos ver o chamado PC do B. A ideologia comunista propõe que as diferenças econômicas entre as classes sociais sejam suprimidas. Uma maneira de atingir este intuito é conceder aumentos salariais maiores a quem ganha menos e não o contrário. Eu tenho duas hipóteses para explicar o comportamento do deputados ditos comunistas. A primeira é que talvez os parlamentares comunistas acreditem que a única maneira de forçar a revolta popular que levará ao comunismo seja o agravamento das diferenças econômicas entre as classes e isto levaria à revolta. É claro que esta é uma estratégia de alto risco para o pescoço dos revolucionários de gabinete, pois os revoltosos provavelmente priorizariam a eliminação destas figuras supostamente causadoras da própria revolução. Como brasileiros não são muito afeiçoados ao sacrifício pessoal em prol de outrem, suponho que esta hipótese possa ser afastada.

Uma outra possibilidade seria um nivelamento de classes por cima, e posteriormente os deputados fariam algo para elevar a base da pirâmide social em direção ao seu topo. Qualquer semelhança com a história de primeiro crescer o bolo e depois repartí-lo do ex-ministro Antonio Delfim Netto não me parece mera coincidência. Na verdade é totalmente consistente com uma tradição politica brasileira que remonta ao período imperial. O parlamentarismo às avessas daquele período, onde primeiro se elegiam os políticos e depois fazia-se a eleição é bastante parecido. Os nossos nada criativos marxistas copiaram a idéia e chegaram no comunismo às avessas. Acho que esta explicação faz sentido e corrobora a atuação de figuras como o rastejante Aldo Rebelo, a deputada patricinha Manuela D'Ávila e os demais espertalhões que exploram o nicho do mercado eleitoral formado pelos comunistas que apreciam ser enganados.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A alma-penada da crise assombra Lula e Mercadante

Alguém se lembra da crise do subprime de 2008? Parece até algo acontecido num passado mais remoto que a crise de 1929, o seu retrato apocalíptico em branco-e-preto. Confiando no esquecimento e numa possível burrice de quem os ouvia, alguns políticos brasileiros espalharam análises apressadas e simplórias, dignas do seu estado intelectual precário.

Talvez a palavra análise não seja a mais adequada para descrever a opinião destes senhores, pois esta se resumiu a uma frase a ser repetida como um mantra por seus seguidores incautos. A tal máxima, proferida pelos senhores Lula e Aloísio Mercadante, era algo como: "a crise do subprime sepultou as teorias de não-intervenção do estado na economia dos países". É claro que Lula entende menos de economia do que futebol, mas esperávamos que o sr. Mercadante, professor universitário e doutor em economia, soubesse que é preciso um pouco de tempo para entender um fenômeno complexo, cujos efeitos são sentidos no médio e até no longo prazos, e que é preciso mais cautela antes de dizer que todo um conhecimento acumulado deve ser atirado ao lixo.

Passados dois anos, a crise arrefeceu mas os seus efeitos perduram nos EUA e na Europa. Para combatê-los, os governos que encharcaram seus mercados financeiros com dinheiro público começam a cobrar pelo serviço de atenuar a crise de uma maneira bastante ortodoxa: o corte de gastos públicos. A mesma providência que Lula e Mercadante acreditaram ter ficado para o currículo da oposição reacionária, causadora da crise através do seu liberalismo selvagem. Nesse momento, os citados políticos mantém o bico calado e a esperança que esta análise econômica se perca no acervo de idiotices que compõem os seus discursos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Instituto: você também pode ser um

Lula diz na cidade de Estreito, no Maranhão, que políticos eleitos são instituições, e por isso devem ser respeitados. Nada mais coerente com a sua visão autoritária da política. Já falei deste assunto anteriormente, então não vou me estender. Mas o fato é mais uma evidência de que Lula não entende que todas as pessoas, inclusive os políticos, deveriam ser iguais perante a lei. No Brasil, esta igualdade não existe, dadas as imunidades parlamentares. O fato de tais instituições de carne e osso precisarem ser respeitadas pelo cargo que ocupam é apenas mais um agravante, pois a mensagem é que quem não é cidadão-instituto não precisa ser necessariamente respeitado. Lula é um retrato do Brasil, do que ele tem de pior, que é o autoritarismo granulado em pequenas atitudes cotidianas tal a observada na inauguração da comporta da hidrelétrica maranhense.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Truque da Elite

O filme Tropa de Elite 2 levanta algumas questões interessantes. Uma é a crítica ao serviço de segurança pública prestado pela polícia militar no Rio de Janeiro. O filme propõe que o batalhão de elite do BOPE pode estar prestando um serviço ao eliminar lideranças do tráfico em bairros pobres, pois estes seria substituídos por policiais corruptos que venderiam a segurança à população. É uma hipótese.

Por outro lado, o que salta aos olhos são as velhas arapucas intelectuais que aprisiona as mentes brasileiras. Uma é a necessidade de um salvador da pátria. No caso de tropa de elite 2, o cel. Nascimento assume este papel para unir os grupos de direitos humanos com a polícia. Outro conhecido atoleiro onde Padilha se mete são os conceitos vagos. O cel. Nascimento entra para a burocracia da segurança pública e afirma estar no centro do "sistema". Que sistema seria este? seria o sistema de segurança pública? não. Esta palavra frequenta o vocabulário de mentes simplificadoras de problemas. O sistema é tudo o que quem a emprega é incapaz de entender. Cria-se um conceito para assumir um papel de demônio no maniqueísmo habitual. O sistema tem que ser mudado, o herói criado é indispensável para a derrocada do tal "sistema". Existe uma interdependência entre estes dois conceitos, e no filme de Padilha a velha mania está patente.

Cinematograficamente, os pressupostos da fórmula hollywoodiana estão satisfeitos: uma solução milagrosa para uma falsa polêmica criada no âmbito de um problema difícil, mais uma certa dose de emotividade, que no caso do filme é dado por problemas pessoais do coronel com seu filho. Não admira que tenha alcançado o sucesso de público que teve.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Instituto da ex-Presidência

O futuro ex-presidente Lula começa a dar indicações sobre o seu futuro. Alguns cogitaram que ele poderia assumir o posto de secretário-geral da ONU. Delírios a parte, Lula engajar-se-á num certo instituto que levará seu nome. Típico político brasileiro, Lula não é exatamente criativo e copiou a idéia de Fernando Henrique Cardoso que por sua vez e copiou a idéia de ex-presidentes americanos.

A proposta principal de tais institutos é tentar aproveitar o prestígio dos ex-presidentes para levantar fundos para determinados projetos. O Instituto FHC provavelmente já não tem proposta nenhuma, dado o seu partido não tem qualquer projeto senão retomar o poder em 2014. Lula tem uma enorme popularidade no Brasil, fora nem tanto. A África foi onde Lula menos errou, então seu instituto vai tentar se aproveitar disso para angariar algum apoio ao governo Dilma naquele continente. Seu sonho de consumo é um assento permanente ao conselho de segurança com os votos dos africanos, sonho mais do que ilusório.

Já a proposta secundária de tais instituições é retardar o aparecimento da verdade histórica de seus governos. Os "estudos" publicados ali sempre têm a intenção de salientar algum suposto aspecto positivo do antigo governo e apontar propostas para a continuação destas pretensas benfeitorias. Evidente que mentiras têm pernas curtas, mas até lá o efeito eleitoral da verdade poderá menor. O IFHC falhou neste aspecto. Que o de Lula tenha a mesma sorte.

domingo, 21 de novembro de 2010

Pré-sal: dinheiro para financiar a ruína do Brasil

O governo brasileiro pretende investir na construção de submarinos nucleares, supostamente para proteger o litoral rico em pretróleo, segundo matéria divulgada por O Estado de S. Paulo. Cada submarino custa a bagatela de 550 milhões de euros, algo como 1,3 bilhão de reais. É claro que os custos não param por aí. Vão desde a construção e manutenção de instalações em terra, produção de combustível nuclear, radares, mísseis, pessoal, etc etc. Ou seja, uma fortuna cujos números podem crescer descontroladamente.

Quanto o governo brasileiro pretende lucrar com a exploração de petróleo na camada pré-sal? será que é algo muito superior ao custo e manutenção destes submarinos, fora todos os custos da exploração em si? Provavelmente não. O futuro do dinheiro do pré-sal não é a educação, como diz o sr. Lula. O verdadeiro destino dos recursos são a corrupção e os desejos nacionalistas escondidos em partidos de toda as vertentes políticas, mas principalmente de esquerda, como o PT. O petróleo é a chance de renovar o antigo desejo do governo militar de construir o Brasil-potência.

É claro que o Brasil jamais será capaz de enfrentar aos ditos gigantes do militarismo internacional: o os EUA, a Rússia e a China. Se quisesse fazê-lo, os recursos ganhos com a venda de petróleo seriam insuficientes. Sendo assim, a pretensa riqueza se transformará numa fonte de exploração, pois certamente os gastos militares serão muito maiores, e a sociedade sofrerá, na melhor das hipóteses com impostos, e na pior com alguma guerra, estúpida e desnecessária com todas as anteriores.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Lula sorri. Diplomaticamente.

O presidente americano Barak Obama declarou o seu apoio à candidatura da Índia a um assento permanente no conselho de segurança da ONU. É claro que a situação é bastante complicada, pois muita gente quer uma cadeira ali e todos têm opositores: a Índia tem o Paquistão, a Rússia e a China, o Brasil o México e a Argentina, a Alemanha a Itália, e assim vai. Ou seja, ainda será preciso muito tempo para que as palavras se traduzam em fatos.

Mas o fato é que a declaração do sr. Obama é uma derrota pessoal do sr. Lula, que também queria conseguir uma cadeira. Lula é entusiasta da diplomacia do sorrisinho. Em todas as questões internacionais onde tentou aplicá-la, se deu mal. Achou que à base de sorrisinhos, tapinhas nas costas e frases do tipo "conversando nos entendemos", além do seu suposto carisma, poderia resolver questões que se arrastam há décadas. Quis transformar Israel numa rua 25 de março, onde judeus e libaneses têm lojas em São Paulo, apoiou o presidente Zelaya de Honduras, ficou falando sozinho após inventar um acordo com o Irã que nenhum país levou a sério, transformou o Haiti num protetorado bastante dispendioso e tentou colocar brasileiros e outros terceiro-mundistas em cargos chave da ONU. Um fiasco completo, mas Lula manterá o seu sorriso, pois é a única coisa que tem a oferecer.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Lula e o New Deal brasileiro

Recentemente o sr. André Singer publicou um artigo entitulado "o lulismo e seu futuro" na revista Piauí. Nele, o governo de Lula é comparado com o de Franklin Delano Roosevelt nos EUA. No período considerado, houve uma grande redução da pobreza naquele país, e Singer acredita que Lula uma deixa um legado semelhante aos que o sucederão, pois terão de manter suas políticas sociais independente da cor partidária. Segundo Singer, quem não comprometer-se com a redução da pobreza, não terá chances eleitorais no Brasil.

Bem, vamos com calma. O sr. Singer é, ou foi, assessor de comunicação da presidência da República, e, pelo currículo de Lula, jamais poderia dizer algo que o desagradasse. Assim, o artigo recende a propaganda governamental travestida de análise.

Primeiro, como foi obtida a redução da pobreza em ambos os países? Nos EUA de Roosevelt, através do estímulo ao emprego pelo estado. O governo Lula também estimulou bastante o emprego através da manutenção da política monetária do governo FHC e pelo estímulo ao crédito ao preço do aumento do endividamento interno. Ele também foi muito favorecido pela conjuntura econômica mundial, o que não aconteceu com Roosevelt, que enfrentou a crise dos anos 1930. Programas de distribuição de renda como as bolsas sociais não foram empregadas nos EUA. Além disso, em 1930 os EUA eram um país mais industrializado do que o Brasil de Lula, cujo crescimento econômico foi baseado na exportação de commodities agrícolas e minerais e produtos montados no Brasil com componentes importados.

Assim, o que Roosevelt e Lula têm em comum? apenas uma vocação intervencionista do estado na economia, e a comparação seria possível com muitos outros governos com esta característica. A política monetária e a conjuntura internacional não são obra de Lula, e sem elas seu governo estaria arruinado.

Porém, o efeito eleitoral de Lula foi até agora bem-sucedido. Através das bolsas que não geram mudanças sociais duradouras, Lula conseguiu ajudar bastante sua sucessora na região nordeste. A outra parte da ajuda foi devida à geração de empregos no sudeste.

Ou seja, oRoosevelt e Lula têm mais diferenças que semelhanças. O sr. Singer explicita o colonialismo intelectual do qual é fruto através do seu texto. Ele busca colar a imagem de Lula na de um personagem histórico que tem uma imagem positiva e, mais importante, é um estrangeiro. Como a personalidade em questão é americana, o autor usa uma terminologia com um claro ranço de sindical para tentar evitar ser considerado pró-imperialismo pelos seus colegas de ofício. Uma peça literária que, tal como Lula, terá o lugar histórico que merece.